25/09/2006


A Casa




b. c.


A Casa, que nunca fechou suas portas,
andou meio abandonada.

Vazia,
a poeira amontoando,
garrafas vazias jogadas no chão.

Era uma casa,
era um sonho,
era um recanto.

Mas de tão vazia,
de tão abandonada,
começou a ruir.

Ninguém por lá mais passava.
Não se sentia mais cheiro de café.
Quiçá broa!

Mas a Casa,
essa danada,
se cansou!

Gritou bem alto,
sacudiu poeira,
e agora,

com a mesma cara
de sempre,

com o mesmo desejo
de antes,

Foi pro fogão.
Esquentou a água,
Mexeu a farinha,
com duas gemas de ovos,
e mais tantas outras coisas.

E enfim,
café fresco,
bolo de fubá,
espera,
ansiosamente,
os velhos
e novos
amigos!


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (12)

02/07/2005


Coração Vagabundo




Caetano Veloso


Meu coração não se cansa
de ter esperança
de um dia ser tudo o que quer
Meu coração de criança
não é só a lembrança
de um vulto feliz de mulher
que passou por meus sonhos
sem dizer adeus
e fez dos olhos meus
um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
quer guardar o mundo
em mim



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (15)

14/04/2005


Corridinho




Adélia Prado


O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (9)

18/01/2005


Delírios - Sábado à noite




Bruno Coutinho


Toca meu ombro
Calado
Olho para o lado
- Me dá um cigarro
Rua escura
Muitas vozes, poucas almas
- Não vai entrar não?
Lá dentro forte cheiro de fumaça
toca um disco de jazz
Nada na minha mente
- Há quanto tempo?
Tempo demais – ou será
tempo de
menos?
Sem toque, sem tato
Sombras
Vozes que se misturam
Inaudíveis
Esbarro em algo
-É a esperança perdida...
Mas se eu a encontrei?
Não a sua,
esperança de outro
- Cadê a minha?
Fugiu pra longe
Longe onde?
Mais longe do que você pode
alcançar...
Restos...
Meu estômago embrulha
- Me dá um cigarro!
Não tenho fogo... apagado
Derrubaram minha taça
Onde está o tempo?
Já passou...
Cabeça
Preciso desmaiar...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (30)

18/01/2005


Queria fazer poesia fina...




Bruno Coutinho


Queria fazer poesia fina
Usar palavras rebuscadas
Escrever intrínsecas,
Interstícios...

Queria fazer poesia fina
Desenhar metáforas
Falar da microscopista
E da dona fia

Queria fazer é poesia de luxo
Falar do crepúsculo
Baudeleirar...

Queria mesmo é fazer poesia simples
Arroz com feijão
Angu, chuchu...

Mas não sei fazer poesia fina
Nem de luxo

Só sei contar palavras
Sem rebusco,
Sem sentido

Sei misturar as sentimentalidades
Em panela de barro
Temperar com lágrimas
E soluços

Lendo receita da ofélia (adélia?)


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

08/01/2005


A Poesia Me Persegue...




A poesia me persegue
Porcarias...
Por horas me esqueço dela
E começo a viver
Mas quando nem bem começo a ser feliz,
Ela me puxa pelo ombro e sussurra:
“Não esquece de mim...”


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

08/01/2005


Com Licença Poética




Adélia Prado


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

08/01/2005


Poema de Sete Faces




Carlos Drummond de Andrade


Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
Não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
É sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
O homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
Mas essa lua
Mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo.




Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (0)

08/12/2004


Sentimento do Mundo




Carlos Drummond de Andrade


Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados

ao amanhecer esse amanhecer
mais noite que a noite.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

15/11/2004


A Sala




Maíra Paiva


Casa dos Contos apresenta:

A Sala



Esta era apenas a sala.
Uma sala tão suave
Que exalava o aroma do vinho.
Um cheiro que embriagava as lembranças de contos antigos.
Felizes éramos tantos amigos.
Na verdade, queríamos sempre mais.
Os sabores se misturavam naquela sala.
Sonhei em ter de volta as horas.
Onze, doze, treze horas...
O tempo estava esparramado no chão.
E havia livros.
E havia a madrugada.
Belos contos, notáveis palavras.
Uma música embalava a garrafa
que aos poucos se cansava
e dançava lá, pela metade.
Dois prá cá, dois prá lá...
Essa era apenas a sala
e esse,
ah...
esse era apenas o meu conto...



Este conto e o desenho eu ganhei de presente da artsita plástica Maíra Paiva, minha grande amiga e grande incentivadora.





Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

15/11/2004


Dona Doida




Adélia Prado


Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

12/11/2004


Lar doce Lar




Cristina Maria de Medeiros


Aqui em casa moramos quatro: Deus, eu, o Capeta e o rato. Deus mora no maior quarto. Na porta tem uma plaquinha dizendo: Não perturbe! E é isso mesmo que eu faço, nesse quarto eu nunca bato. E se batesse, nem mamãe, nem o padre perdoariam... (Diriam que é sacrilégio!)

Não sei quando Ele sai, quando volta, que bares freqüenta, como são Seus amigos. Se ri, se chora, se ama... Sei apenas da plaquinha: Do not disturbe!

Já o Capeta é um homem feio, cheiroso e bem arrumado. Tem a pele macia e a voz aveludada. O Capeta sabe de muitas coisas. Me fala dos castelos da Espanha, dos monges tibetanos e do poder da telepatia.

Toda noite ficamos os dois na sala. Bebendo vinho branco e ouvindo Elis.

De tempos em tempos cedemos ao vício, e aprontamos as cartas pro jogo.

O Capeta é cavalheiro, e por isso eu sempre começo: Faço uma pergunta. Se ele responde e me convence (certo ou errado não sabemos, talvez nunca saberemos, talvez mesmo não importe...)Se ele responde e me convence, tem direito a me fazer duas perguntas, e assim o número de dúvidas vai crescendo. O problema é que eu nunca encontro as respostas, e por isso acho que sempre perco.

Quando nos cansamos do jogo, o Capeta me conduz até o meu quarto (é que os corredores aqui em casa são longos, pouco iluminados, e eu tenho medo do escuro) Então ele me diz boa noite e vai dormir, mas não sem antes me dar um beijo na testa e desejar um sono tranqüilo velado pelos anjos.

Quando ele sai eu rezo. Rezar é bom. É como contar carneirinhos...

Dá um soninho gostoso...

E eu durmo.


Algumas vezes me masturbo ( Sem ruídos, pra Deus não ouvir), depois eu durmo.




Esqueci de contar do Rato. Mas não se preocupe, é que o Rato está em todo lugar. É como a Bruxa...



O Rato está roendo você
Está roendo a folha.
O Rato roeu a roupa do tal rei de Roma.
O Rato roeu o próprio rei.
O Rato rói tudo.


Eta Ratinho safado


Poema "roubado do A4 Mãos


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

07/11/2004


Desejo




Victor Hugo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de
pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é
insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

31/10/2004


E a Morte Perderá o seu Domínio




Dylan Thomas


E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

29/10/2004


Versos




Bruno Coutinho


Tento versos tristes
mas tristeza, abandonou-me
Tento desejos secretos,
mas desejos, já não os tenho

Rabisco palavras sem nexo
vasculho a mente a procura dos versos
Recordo, leio e discordo

Não me alcança a poesia
não me tocam nem as canções
não há melancolia,
não há alegria

do vazio me rebusco
me vasculho,
me procuro

Não me encontro.
Ser vazio,
sem dor, sem amor

nada do que me digas
minha alma escutarás

nada que me cante
meus olhos encantarão

não sou alegre, nem sou triste,
como cecília,
mas poeta também não sou,

eu sou aquele que ronda o breu
e que voa em torno da luz,
mas sem tocar
nem um,
nem o outro

não me peça para sorrir
também não peça meu choro

nada vejo, nada posso
apenas continuo

não sei para onde,
não me pergunte.
estou ao sabor das marés
para onde me jogarem, estou indo

minha voz já não se escuta
e meus ouvidos, nada ouvem
sequer meus versos
posso terminar.
não sou alegre.
não sou triste.
não sou cecília,
não sou drummond


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (6)

30/09/2004


Venho de Tempos Antigos




Hilda Hist


Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.

Deus: Uma superfície de gelo ancorada no riso.



Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst... eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (10)

18/09/2004


Convite




Lya Luft


Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

06/09/2004


Procura da Poesia




Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo, esse excelente,
completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile,
tua careta de gozo ou dor no escuro são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem,
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema.
Aceita-o como ele aceitará sua forma
definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

27/08/2004


Foz




Quedo-me em mim
Cachoeira, me esvaio
Deságuo-me sem fim
ne transbordo, me espalho

Se às vezes sufoco,
às vezes sacio.
Não me acalmo
nem me agito

Sigo sem nexo
Sem rumo
Convexo.

Quedo-me a sós.
Meu destino,
minha foz.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

25/08/2004


Não me sei moderno...




Pedro Phalesia


Não me sei moderno
Nem me sei dizê-lo.
Sei que cultivo,
Lavrando-me
No arado dos livros
E nas ondas dos discos,
As sementes sobreviventes
Do que me será eterno.

Não me sei social
Nem me sei comunitário.
Sei que sobrevivo,
Guiando-me, indivíduo,
Entre verdades e hipocrisias...
E busco, entre o entulho dos dias,
Despojar-me de todas as peles:
Andar sempre em carne viva
Como quem se esquece da morte e da vida.

Caminhar, só caminhar...
Sentir a paz a chegar...

Não me sei moderno
Nem me sei social.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

12/08/2004


As Coisas




Arnaldo Antunes


As coisas têm peso,
massa,
volume,
tamanho,
tempo,
forma,
cor,
posição,
textura,
duração,
densidade,
cheiro,
valor,
consistência,
profundidade,
contorno,
temperatura,
função,
aparência,
preço,
destino,
idade,
sentido.
As coisas não têm paz.



"As coisas querem ser coisas,
que na verdade não são..."
Cecília Silveira



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (12)

02/08/2004


Quero Escrever Borrão Vermelho de Sangue




Clarice Lispector


Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (10)

23/07/2004


Dá-me Tua Mão




Clarice Lispector


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (12)

23/07/2004


Apreço




Bruno Coutinho


Passarinho que voa sozinho,
não tem pra onde voltar...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (7)

14/07/2004


Reforma




Bruno Coutinho


Reformei a casa

Tirei a tinta velha das paredes,
mudei os móveis de lugar,
Botei à mesa a louça de jantar.

Tirei o pó dos armários.
Bati o tapete na janela.
Troquei os quadros da parede.

Comprei bibelôs no centro,
nas barraquinhas da Oiapoque.
Arranquei as cortinas velhas.

Troquei lustres,
enfeites,
e sonhos.

Troquei as cores,
os odores,
os temores

Agora olho a nova casa:
Tão velha como antes
tão nova como antes,
tão minha como pode...



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (15)

30/06/2004


O Poeta é a Mãe das Armas




Torquato Neto


O poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (6)

24/06/2004


Soneto de um Cativo




Leonardo Gonçalves


Muito eu tinha pra viver, esperança que esqueci, pensando apenas em me guardar
E querendo não te querer, os meus valores confundi, procurei me embalsamar
Dizendo-me para esquecer, muitas coisas eu calei, as paredes a me punir
Pergunto-me o porquê, responder eu já nem sei, sigo fingindo não fingir


O coração oprimido já transforma formol em merecidas lágrimas
Preparando-se para unir-se às sombras agônicas da lua minguante
Ainda assim, não rejeitou o estudo das preciosas páginas
Que no livro da vida diz transformar sonhos em diamantes

Mas nem mesmo a etopéia, decifrando o indecifrável
Nem mesmo a panacéia, solucionando o improvável
Compreendem este amor: eterno, pleno e inafastável

Impossível seria neste soneto finito resumir lembranças que tenho descalço a andar
Há muito perdi-me nas páginas de tal livro, acabando por viver a me acorrentar
Levando a estacionada vida de um cativo, fingindo pra mim mesmo aceitar






Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

14/06/2004


Vivendo e aprendendo...




...mesmo que tarde, antes do nunca


Marcelo Nocelli


Já não era mais o mesmo desde o dia em que abandonara o velho trabalho em que passou a vida pensando amar. Hoje era o grande dia de sua vida, nunca ia esquecer este dia 29 de março de 2048, sentia-se como um jovem recém formado saindo da faculdade para enfrentar a vida e cheio de esperança e expectativas.

Quando iniciou sua vida profissional, na década de 90, foi difícil largar a música, os amigos, a vida noturna, os bares. Mas não tinha outra escolha, precisava abandonar o velho sonho de vencer um grande festival de música, não podia ficar tocando em bares a vida toda, correr atrás de uma carreira artística seria quase impossível, já que a concorrência sempre foi muito grande, não poderia passar o resto da vida procurando uma oportunidade para começar a busca pelo sucesso, já estava com vinte anos, a faculdade acabou, precisava de um trabalho sério, a namorada já falava em casamento; Mas como? se não tinha ainda um emprego ou ao menos qualquer fonte de renda. Além do mais, tocar era uma coisa normal entre os adolescentes - todos nesta idade sonham em se tornarem cantores famosos um dia - o melhor era procurar um emprego na área que acabara de se formar, mesmo passando toda a festa de formatura da universidade analisando e pensando mais na banda que ali estava à tocar, do que nos cinco anos de engenharia que acabará de findar. Mas ao mesmo tempo não queria para si, passar o resto da vida tocando em bailes de formaturas... E quando ficasse mais velho, tocaria o que? Cobraria quanto? Alguns trocados?! Sentiu medo! Seria como esses "Elvismaniacos" vestido a caráter e tocando para jovens recém formados embriagados a zombar-lhe. Não! Agora é hora de pensar na vida. Seguir em frente. Trabalhar, casar, constituir família.

Conseguiu antes mesmo do esperado um bom emprego, fez carreira, obteve êxitos, grandes negócios, boas oportunidades, claro que não conseguiu perceber algumas outras oportunidades na hora certa, mas mesmo assim aproveitou a maioria das que apareceram. Casou-se, teve filhos, adquiriu bens, casas, chácaras, carro importado, tanta coisa que mal conseguia tempo para aproveita-las, cumpriu durante anos uma rotina que na verdade não sabia exatamente se realmente gostava ou não, mas era a vida, sabia que nem tudo é felicidade, nada é fácil, e todos temos nossas obrigações a cumprir. Mesmo assim nunca deixou de tocar, fazia isto como um hobby, nas festas de família ou em qualquer oportunidade que lhe aparecesse, não podia ver alguém segurando um violão, cansou de escutar elogios dos amigos, parentes e até dos desconhecidos.

O tempo passou, conseguiu a já sonhada aposentadoria, não tinha que se preocupar mais em trabalhar, afinal fazia parte dos 5% dos aposentados brasileiros que não precisam mais continuar trabalhando para sobreviver, sentiu-se realizado, batalhou a vida inteira por esse momento, agora era só descansar e esperar o tempo passar, pra não dizer "esperar a morte chegar".

Pode se dedicar mais ao seu passatempo preferido, tocar violão em qualquer lugar que desse vontade, nos bares, nas festas e em casa a qualquer hora. Até que um velho amigo dos tempos de universidade resolveu por brincadeira inscreve-lo no mais importante festival do país, a principio por brincadeira ou incentivo para alegrar o amigo. Foi classificado, mas chegou a pensar em não se apresentar, claro que os amigos não deixaram que fizesse isso... Não foi nenhuma surpresa para todos, a não ser para ele mesmo, que conseguiu o primeiro lugar com méritos. Daí pra frente foram convites e mais convites para programas de TV, rádio, entrevistas para jornais, revistas, pedidos de grandes cantores para gravar suas músicas, etc...

Hoje 29 de março de 2048, aos 73 anos estava assinando um contrato milionário com uma gravadora de porte internacional, pelo direito exclusivo de suas composições por um período de três anos com prioridade de renovação após o término do contrato. Agora só resta rezar para o tempo passar bem devagar e torcer muito para que a morte demore a chegar, pois uma nova vida esta apenas começando para este homem.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (6)

12/06/2004


Vazio




Bruno Coutinho

Nas minhas mãos

Meus dedos se encontravam

Tão meus... tão seus

Nada de mim em ti

Tanto de ti em mim...



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (42)

11/06/2004


Projeto Curtas Casa Cultura




A Casa Cultura estará disponibilizando agora a cada semana um curta-metragem diferente, mostrando o que há de novo, e de velho, na produção independente do cinema brasileiro! Acessem Casa Cultura e aproveitem!







Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

11/06/2004


1.000!!!




Bom, tentei colocar os agradecimentos aqui para todos que me ajudaram a alcançar as 1.000 visitas mas realmente não consegui, pois toda hora quebrava o link, ou atrapalhava o template, e aí de repente apagou o post todo, e eu não tenho nem idéia de onde ele foi parar! Bom, então, obrigado a todos!! A Casa dos Contos terá sempre um cafézinho passado na hora para as visitas!!!



Desenho: Bruno Coutinho - Música de Flávio Henrique e Chico Amaral





Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

08/06/2004


Colagem






Máscaras do Teatro; Lampião e Maria Bonita; Mao Tsé Tung em obra de Andy Warhol; Clarice Lispector; estátua de Drummond em Copacabana; Emily Dickinson; Mário Quintana; Vinícius de Moraes; postêr de show de Bob Dylan; Freud; desenho de cidade; Fernão Capelo Gaivota; Che Guevara; Jim Morrison; Dylan Thomas; poema de Hilda Hist; Oscar Wilde


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (6)

07/06/2004


Vivência




Bruno Coutinho


Na casa vazia, de onde nunca havia saído antes, resolvera abrir a janela.
Sombra não havia, pois não há sombra se não há luz.
Formas e cores, também não. Nem o negro, pois na ignorância do branco e do azul, o negro não se conhece. Era sempre o mesmo, o mesmo nada. Nada de cor, nada de luz, nada de trevas. Nada se via, nada lá havia. O que era, não sei... não era! O que fora, ah... o que fora! Não sabia... sequer sabia distinguir o passado do futuro. Mas sabia que algo fora, sem sequer saber o que isso significava.
Neste intuito de saber o que fora, e o que quer que isso quer dizer, resolvera abrir a janela.
Mas como nada havia, não sabia se janela existia. Apalpava o nada, sem nada sentir. Tropeçava em algo, que nunca vira... pois não haviam formas nem cores... Sem cor, não vê, e se não vê, não existe. Ou existe? Odiava, odiava aquela dúvida! A dúvida que o fizera sair daquele canto, no meio do nada da casa vazia. No seu canto, nada sentia... não sentia medo, alegria ou tristeza... porque afinal, desconhecia essas sensações...
Mas um dia (era dia?), uma pontada o fizera se questionar: havia algo além do nada? Havia alguém além de si? Ah! Dúvida, dúvida!!!! Batera milhões de vezes a cabeça.... descobrira o pranto e a dor, que antes lhe eram estranhos... Por quê? Por quê? Por quê?
Mas havia decidido! Iria abrir a janela! Nem sabia o que era uma janela, mas iria abri-la... E assim continuou, tateando pela casa vazia... tropeçando em coisas que não haviam, em objetos que não existiam, sem nunca encontrar a janela...



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

03/06/2004


O Pensador de Rodin




Gabriela Mistral


Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.

E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O "havemos de morrer" passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.

E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte

Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.






Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

01/06/2004


Fio




Cecília Meireles


No fio da respiração
rola minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.
Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.
Passas longes, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...
-Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

28/05/2004


Organizar




Bruno Coutinho


Abri meu baú
E dele retirei minhas lembranças
Separei uma a uma,
cataloguei, enumerei e...


1 – Lembranças daquelas risadas
2 – Lembranças dos dias de chuvas
3 – Lembranças das tardes de pranto
4 – Lembranças das noites de Lua Cheia
5 – Lembranças dos momentos ébrios
6 – Lembranças dos momentos sóbrios
7 – Lembranças dos velhos amigos
8 – Lembranças dos sonhos esquecidos
9 – Lembranças das horas de solidão
10 – Lembranças dos séculos de solidão
11 – Lembranças da solidão
12 – Lembranças
13 – ...
14 –
15


não pude arquivar...




Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (8)

18/05/2004


Lua Adversa




Cecília Meirelles


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (10)

15/05/2004


Gume




Max S. Moreira


Tender às bordas é uma sina.

Os limites,
ora estreitos limítrofes,
ora largo litoral,
inclinam-me.

Meandros confundem-se entremeios.

Entre o abismo e a orla,
pergaminho.

Ora a brisa, ora a água,
toca-me os pés.

Não-caminho,
margeio.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

11/05/2004


500!!




Pouco mais de uma semana após ter atingido 300 visitantes, a Casa dos Contos chega aos 500!!!! Mais uma vez, reitero o agradecimento a todos que por aqui passam! Quando quiserem tomar um cafézinho, podem vir! A Casa é de vocês!





Pós-tudo - Augusto de Campos





Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (6)

09/05/2004


No Meio do Caminho




Cristina Maria de Medeiros



Onde está ele?
- Ele quem?
- Qualquer ele.

Que tal o homem? ... Onde

está o homem?

- No meio do caminho.


- E onde ele estava

quando começou a andar?

- No meio do caminho, ora!!!

- E onde acaba o homem?

- (suspiro) No m e i o do

caminho.

- O que é transição?

- Meu Deus é moderno.
Meu Leonardo é bruxo

- E o que não é transição?

Nada.

Mais um poema "roubado" do A 4 Mãos



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

09/05/2004


Lugar Algum




Bruno Coutinho


Em caminhos nunca percorridos, vou seguindo rumo ao desconhecido. Atravesso vales e mares, ruas escuras e ofuscantes. Vou sempre seguindo, para lugar algum, encontrar ninguém. Meu tempo é curto, minha estrada, longa. Tenho evitado atalhos, vou sempre pela mesma estrada, lenta e dolorosamente. Na minha jornada pra lugar algum encontro fatos e fotos, lembranças enterradas em minha alma, que nem eu mesmo me lembrava. Lembranças... gostaria de não tê-las. São sempre dolorosas, ou no mínimo saudosistas. Nos faz sempre lembrar que o ontem era melhor que o hoje, mesma que não o tenha realmente sido. Em Lugar Algum não há lembranças, nem memórias... não há sonhos nem pesadelos, nem dor nem felicidade...
Em lugar Algum me encontrarei...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

08/05/2004


Metade




Oswaldo Montenegro


Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente
Complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a plateia e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (8)

07/05/2004


Quebrado




Bruno Coutinho


Cada passo dado
Cada passo largo
cada passo em falso

Cada sonho amargo
É fetiche em falso
É feitiço em valsa

Cada flor pisada
É sonho quebrado
É valsa dançada

Cada amor partido
É como flor pisada
É sonho quebrado

Cada passo dado
Cada laço dado
Cada nó quebrado

Cada amor quebrado
É fetiche em valsa
Cada passo largo

Cada sonho partido
É como laço largo
É feitiço falso

Cada flor amarga
Cada sonho em valsa
Cada amor pisado

Cada passo dado
Cada passo largo
Cada passo em falso


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

06/05/2004


Passagem




Bruno Coutinho


Quanto tempo passou
Os sonhos mudaram
Águas que corriam antes,
hoje não correm mais


Na minha janela
outros pássaros cantam
Bate vento vindo de outros lugares
Já não brilham as mesmas estrelas


Os olhos já não são os mesmos
tantas coisas eles viram
tantas marcas eles trazem


Mas o sopro...
Este continua o mesmo
E todas as manhãs vem brincar com seus cabelos


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

04/05/2004


O Caso do Vestido




Carlos Drummond de Andrade


Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada

Para conferir matéria sobre o filme O Vestido, baseado neste poema de Drummond, acesse Casa Cultura



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (13)

04/05/2004


Casa Cultura









Quero convidar todos os amigos para conhecer o meu segundo blog, Casa Cultura. Neste novo espaço, poderá ser conferido informações culturais, dicas sobre música, arte, cinema, teatro, exposições... Contaremos também com dicas de lugares, shows e eventos, sendo um canal aberto com a cultura. Conto com vocês por lá. A Casa dos Contos continua firme e forte, trazendo sempre um pouco de poesia e arte, de mãos dadas agora com a Casa Cultura. Espero que aproveitem o passeio!



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

02/05/2004


300




A Casa dos Contos atingiu hoje 300 visitas! Agradeço a todos aqueles que visitaram a Casa. As portas estarão sempre abertas. Agradecimentos especiais:




Tatiana - Mexidão
Paulinha - Assim Assado
Panis - Almanaque
Cristina e Fábio - A 4 Mãos
Ana - Todos os Sentidos
Ana Paula - Mundo da Comunicação
Reinaldo - Coração Noturno
D. Vera
Viviane
Mary's Band
Maira
Lilisa
Denise
Gi
Déia
Tatá
Marcelinha
Léo
Obrigado a todos!


"No azul no azul turqueza,
Já que a Casa está vazia
Vem me fazer companhia
Na janela da cozinha..."

Flavio Henrique











Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (10)

29/04/2004


Oriente




Gilberto Gil


Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração
Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão
Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (8)

28/04/2004


Triunfo das Nulidades




Ruy Barbosa


De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

26/04/2004


São Jorge




Dia 23 agora foi o dia de São Jorge. Sem querer tomar partido religioso, mas vale a pena lembrar esta bela canção.Salve Jorge Ben!


Jorge de Capadócia

Jorge Ben


Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também
Sou da sua companhia
Eu estou vestido com a roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés
E não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos
E não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos
E não me vejam
E nem mesmo pensamentos eles possam ter
Para me fazerem mal
Armas de fogo
Meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes se arrebentem
Sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge da Capadócia, salve Jorge , salve Jorge







Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

26/04/2004


Borboletas...




“Uma noite, sonhei que era uma borboleta. De repente, despertei e era Chuang Tsé. Quem sou eu? Uma borboleta que sonha que é Chuang Tsé, ou Chuang Tsé que imagina que é uma borboleta.”


Citação do filósofo e poeta chinês Chuang Tsé (300 D.C.)






Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

26/04/2004


Palavras




Sílvia Plath


Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

26/04/2004


Miró





Juan Miró - Personagem Atirando uma Pedra num Pássaro, 1926


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

25/04/2004


Memória




Cristina Maria de Medeiros


Eu hoje cortei os cabelos,


porque nem tudo se pode cortar


Poema "roubado" de a4mãos



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

24/04/2004


Ver




Vassíli Kandinski
(tradução de Augusto de Campos)


O Azul, o Azul se alçava, se alçava e caía.
O Agudo, o Fino assobiava e penetrava, mas não saía.
De todos os lados ressoava.
O Marrondenso como que suspenso para sempre.
Penso. Penso.
Abre ainda mais amplo os braços.
Amplo. Amplo.
Cobre o teu rosto com um lenço vermelho.
E pode ser que nada se tenha ainda movido:
só você se moveu.
O branco salto após o salto branco.
E após o salto branco ainda um branco salto.
E neste branco salto um branco salto. Em cada
branco salto um branco salto.
E este é o mal, é que não vês o turvo:
no turvo é que ele está.
É aí que tudo começa..................................................
...........................................Rompeu-se.....................



Composition IV, 1911




Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

24/04/2004


Em silêncio eu me construo




Clóvis Brondani


Em silêncio eu me construo,
Alargo minha solidão
Para que nela caiba ainda mais
Daquilo que eu quero criar.
Eu me amarguro no meu silêncio,
Enquanto os medíocres passam do meu lado.
Me calo diante de suas farpas,
E uma lágrima somente cai no meu interior,
(Que é uma lágrima dentro de um oceano de lágrimas?)
E se torna uma Niágara de sons,
Que eu transformo em mágica,
Apenas para mim mesmo.
Em mim cada vez mais se vê apenas o silêncio,
O sinal da minha repugnância
Aos rasteiros, aos cegos e ordinários.
Silêncio de desprezo e dó,
Por que cada dia sou eu que me reconstruo,
E esboço meu grito anti-pequenês,
Anti-mesquinhês, anti-medianês.
E mesmo que meu grito só a mim seja audível,
Isto pouco importa,
Pois meu canto é muito algo para o ordinário.
O silêncio do trágico
Não é compreensível pelo miserável.
Mas eu não cegarei meus olhos como um Édipo arrependido,
Pois do trágico não sou culpado, apenas sou.
Minha tragédia é encarar a solidão,
Pois é nela que eu crio,
Para mim mesmo apenas,
Ou para algum outro alucinado,
Que como eu esteja interessado em enigmas,
Ou apenas precisando de silencio,
E palavras suaves.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

23/04/2004


A Dor do Não Vivido




Emílio Moura


Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

23/04/2004


Teste Bacana








Faça você também Que
gênio-louco é você?
Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia











Você é "Imensidão Azul" de Luc Besson. Você é sonhador, único. Muito sublime e encantador(a).

Faça você também Que
bom filme é você?
Uma criação deO
Mundo Insano da Abyssinia




Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

23/04/2004


Eu...




Florbela Espanca


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

22/04/2004


Tiradentes




Homenagem (tardia!) da Casa dos Contos a todos aqueles que lutaram e lutam por seus ideais, e que acreditam que um novo país é possível.





Notícias do Brasil

Milton Nascimento/Fernando Brant


Uma notícia está chegando lá do Maranhão
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Veio no vento que soprava lá no litoral
De Fortaleza, de Recife e de Natal
A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus
João Pessoa, Teresina e Aracaju
E lá do norte foi descendo pro Brasil central
Chegou em Minas, já bateu bem lá no sul
Aqui vive um povo que merece mais respeito
Sabe, belo é o povo como é belo todo amor
Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar
O canto mais belo será sempre mais sincero
Sabe, tudo quanto é belo será sempre de espantar
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
Ser mais sábio que quem o quer governar
A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país
Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil
Não vai fazer desse lugar um bom país




Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

20/04/2004


Motivo




Cecília Meireles


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste :
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada






Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

20/04/2004


Traduzir-se




Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

20/04/2004


Soneto da Separação




Vinícius de Moraes


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

19/04/2004


Poética




José Paulo Paes


Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

19/04/2004


Marcha




Cecília Meireles


As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.



O Beijo - Di Cavalcanti



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

18/04/2004


Nada Mais




Bruno Coutinho

Nada mais me separa do meu
Nada mais me afasta do seu
Nada mais me isola do Eu
Nada mais me confina no breu

Nada mais me abraça, meu
Nada mais me acalenta, seu
Nada mais me fascina, Eu
Nada mais me ilumina, breu

Nada mais me sacia, meu
Nada mais me socorre, seu
Nada mais me persegue, Eu
Nada mais me preenche, breu


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

18/04/2004


Do Desejo




(Trechos)

Hilda Hist


Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

14/04/2004


Das Pedras




Cora Coralina


Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

14/04/2004


A Serenata




Adélia Prado


Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

14/04/2004


Solidão




Alcides Fernandes /Tom Jobim


Sofro calada na solidão
Guardo comigo a memória
do seu vulto em vão
Eu tudo fiz por você
e o resultado... desilusão!

O dia passa
A noite vem
A solução deste caso
eu cansei de buscar
Eu vou rezar
pra você me querer outra vez
como um dia me quis


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

01/04/2004


Hão de escutar-me




Hão de escutar-me!
Minha mensagem é triste e definitiva.
É passado o tempo de guerra
e os casais enamorados podem outra vez
andar de mãos dadas nas praças

Hão de escutar-me!
Já não há mais praças, nem casais
mãos não se dão
olhares não se cruzam

Hão de escutar-me,
pois trago notícia de longe
de terra que não tem mais fim
onde os homens já não têm mais lágrimas

Hão de escutar-me!
Pois o momento do julgamento está por vir
não mais se canta, não mais se dança
poesia, não há.

Hão de escutar-me!
Pois o fim se aproxima
sem medo sem dor
ódio ou rancor

Hão de escutar-me!
Hão de aprisionar-me
louco perigoso,
doido varrido

Hão de escutar-me!
Falso profeta do fim do mundo
Hão de me escutar
e me calar...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (5)

28/03/2004


Soneto à Liberdade




Oscar Wilde


Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso
Somente vê a própria e repugnante dor,
Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada
É que, com seu rugir, tuas Democracias,

Teus reinos de Terror e grandes Anarquias
Refletem meus afãs extremos como o mar,
Dando-me Liberdade! -à cólera uma irmã.
Minha alma circunspecta gosta de teus gritos

Confusos só por causa disso: do contrário,
Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros
Roubavam às nações seus sagrados direitos,

Deixando-me impassível e ainda, ainda assim,
Esses Cristos que morrem sobre as barricadas,
Deus sabe que os apóio ao menos parcialmente.


Jim Morrison sofrera grande influência de mestres como Wilde e Huxley


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

24/03/2004


Cogito




Torquato Neto


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

21/03/2004


O Jardim




Não consigo sequer escrever. Minha alma grita seu nome, meu corpo frio implora pelo calor de seus braços. Meus olhos buscam os seus, mas nunca os terá.
Meus sonhos rumam para os seus, meus caminhos se fazem cruzar os seus, mas os seus apenas seguem.
Patético.
Mas o que posso fazer, se minha alma se entregou a sua, e a sua não o fez a minha, e nem o fará? Como transformar este sentimento?
Minha alma grita novamente. Não consigo calá-la. Oh Deus, como eu queria, como eu desejo, um único momento de afeição. Um único momento, em que, naquele instante, seria eterno. Oh Deus. O que fazer? Minhas lágrimas não cessam, meu coração continua descompassado, como se não fosse realmente meu, e acredito que já não o seja mesmo. O deixei em um jardim, onde a Lua iluminava o banco vazio, onde só o meu coração habitava.
Belo jardim, lindo, mas tão frio e tão distante. Me sinto habitante deste jardim, ou será que ele que me habita?
Oh, Jardim de amores, mil vezes me sentarei em seu banco, mas nunca serei convidado a conhece-lô. Fico assim, quietinho, sentado, cabeça baixa, observando sua beleza e sua energia, sem nunca poder compartilhar de suas flores e seu luar.
Ah, como eu amo este jardim, e como eu queria poder nele brincar, tal qual uma criança, tal qual um amante, tal qual a mais forte árvore que o fecunda.
Não, não quero mais ser erva daninha, quero fixar raízes, penetrar a terra e expandir ao Sol, sentir o calor do húmus e o frescor de suas águas.
Penso nisto enquanto estou sentado em seu banco, quieto, de cabeça baixa, sozinho...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

21/03/2004


José




Carlos Drummond de Andrade



E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

15/03/2004


Amores Possíveis




Paulinho Moska


Sim,
Tudo agora está no seu lugar
O universo até parece conspirar pra que não seja em vão,
Tanto tempo esperando esse amor

Sim,
Parece até que nada em nós mudou
Tanta coisa a gente inventou
Pra chegar afinal onde sempre eu te quis ver chegar

Paixões que eu vivi como se fosse uma,
A tua espera sempre foi assim
Contratos feitos com o tempo

Amores são sempre possíveis


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

14/03/2004


Algo Existe




Emily Dickinson


Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

13/03/2004


Você Está Tão Longe




Paulo Leminsky


você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

11/03/2004


A Aranha do meu Destino




Fernando Pessoa


A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

11/03/2004


Esperança




Mário Quintana


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

10/03/2004


As Seis Cordas




Frederico Garcia Lorca


A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

06/03/2004


Grandes Desejos




Adélia Prado


Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o
cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz para cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a
uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

06/03/2004


Quero




Thomas Roth


Quero ver o sol atrás do muro
Quero um refúgio que seja seguro
Uma nuvem branca, sem pó nem fumaca
Quero um mundo feito sem porta, vidraca
Quero uma estrada que leve à verdade
Quero a floresta em lugar da cidade
Uma estrela pura de ar respirável
Quero um lago limpo de água potável
Quero voar de mãos dadas com você
Ganhar o espaco em bolhas de sabão
Escorregar pelas cachoeiras
Pintar o mundo de arco-íris
Quero rodas nas asas do girassol
Fazer cristais com gotas de orvalho
Cobrir de flores campos de aco
Beijar de leve a face da lua



Elis Regina


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (7)

06/03/2004


O Dia Passa...




O dia passa, e eu continuo,
o tempo corre, e eu continuo
Já não tento te esquecer,
já não tento te perder
Eu continuo...

Cego, passarinho caído do ninho,
sem casa, sem alma
Eu continuo...

Os olhos já não brilham,
o corpo não esquenta mais
os sonhos, sonhos...
Eu continuo...


Poppies and butterflies - Van Gogh



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

06/03/2004


Esquecimento




Florbela Espanca


Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...

E desse que era eu meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos...!



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

06/03/2004


Saudade




Patativa do Assaré


Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.

A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

19/02/2004


O Vento




Mário Quintana


Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabia o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo

E o vento!

O vento que vinha desde o princípio do mundo
Estava brincando com teus cabelos...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

12/02/2004


Eu




Eis meu Eu
Um Eu solto, poético
um Eu lacrimoso e
sorridente
Um Eu cansado,
mas de grandes expectativas
um Eu sozinho
buscando seu próprio Eu

Passando por olhares e montanhas,
Cruzando brumas,
Soluçando nos cantos
um pranto seco

Meu Eu continua seguindo
Por momentos parando,
Estacionando no tempo
Por outras voando foguete
Sem pausa nem beijo

Este louco Eu me encontra
Destino e partida
Me sorri
- e se despede


Lasar Segall - Pranto, 1921 / Grafite



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (7)

12/02/2004


A Partida




Franz Kafka


Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu.
Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o.
Ouvi soar à distância uma trompa,
perguntei-lhe o que aquilo significava.
Ele não sabia de nada e
não havia escutado nada.
Perto do portão ele me deteve e perguntou:
– Para onde cavalga senhor?
– Não sei direito – eu disse –, só sei que é para fora daqui,
fora daqui.
Fora daqui sem parar;
só assim posso alcançar meu objetivo.
– Conhece então o seu objetivo? – perguntou ele.
– Sim – respondi – Eu já disse: “fora-daqui”, é esse o meu objetivo.
– O senhor não leva provisões – disse ele.
– Não preciso de nenhuma – disse eu. – A viagem é tão longa
que tenho de morrer de fome se não receber nada no
caminho. Nenhuma provisão pode me salvar.
Por sorte esta viagem é
realmente imensa.


Desenho de Kafka para "O processo"


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

12/02/2004


O Mundo é Grande




Carlos Drummond de Andrade


O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

12/02/2004


Deixa o Olhar do Mundo...




Olavo Bilac


Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (3)

12/02/2004


Minha Morte Nasceu...




Mário Quintana


Minha morte nasceu quando eu nasci.
Despertou, balbuciou, cresceu comigo...
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequenina rua em que vivi.

Já não tem mais aquele jeito antigo
De rir, e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és minha doce Prometida,
Não sei quando serão nossas bodas,
Se hoje mesmo... ou no fim da longa vida...

E as horas lá se vão, loucas ou tristes...
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti... saber que tu existes!


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (2)

10/02/2004


As Cruzes do Caminho




Osvaldo França Junior



A minha estrada é cheia de bruma.
Tenho que ir devagar para não me perder.
Ao lado da estrada só vejo pequenas manchas escuras.
São cruzes.
São as cruzes do caminho.
Nas ocasiões em que me desvio,
tropeço nessas pequenas manchas e volto a direção correta.
Vou sempre com bastante atenção,
mas consciente que essas cruzes irão interromper minha jornada
quando eu não puder mais visualizar a estrada



Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (1)

10/02/2004


Antropofagia modernista




"Vamos comer Caetano?"





Abaporu - Tarsila Amaral


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (4)

09/02/2004


D'Alma




Atravessei a rua, em direção ao acaso,
Fechei meus olhos e abri meu peito
Senti o beijo da brisa em minha face
Parti rumo ao desconhecido
Andei por becos e vielas
Conheci pessoas
Neguei meu destino
Mudei a linha
Limpei o corpo e a alma
Imaginei, criei
Nestes becos e vielas do meu coração
eu dancei...
Dancei uma valsa louca
um samba descompassado
Sem eira, nem beira
Por vezes gritei bem alto
Não para ser escutado
mas, pelo simples prazer de gritar
Em outras, me mantive em silêncio
por dias e noites
Contando estrelas
e abraçando nuvens
Me entreguei ao acaso
viajamos de mãos dadas
realizamos sonhos
e depois, voltei
a mim


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (7)

09/02/2004


A Última Gota de Vinho




A última gota de vinho
Tal qual a última gota de sangue
Amarga minha garganta
Seca meus lábios

A última gota de vinho
Consome minha alma
Suga minhas forças
Escorre pelos meus dedos

A última gota de vinho
A casa vazia
O cheiro ébrio da dor
Medo...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (7)

08/02/2004


Poética




Vinícius de Morais


De manhã escureço
De dia, tardo
De tarde, anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contém
Passo por passo
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Aonde há espaço
Meu tempo é quando


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (6)

07/02/2004


Crônica do Eterno Pensar




Você vai tentar
Você vai correr
Você vai gritar
Você vai gemer
Você vai amar
Você vai sofrer
Você vai chorar
Você vai morrer!

Olho para os lados! Onde? Onde?
Procuro tua mão no escuro! Vazio!

Não sei onde ir. Nem onde esconder
Não sei como rir, não sei mais sofrer

Quero gritar, meu canto calado
Quero chorar, meu pranto rolado
Quero dançar, meu corpo cansado

Não sei onde ir, nem onde esconder
Não sei como rir, não sei mais sofrer


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (6)

07/02/2004


Anfiguri




Vinícius de Morais


Aquilo que eu ouso
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero

Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou

Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai

Vida, quem me dera
Amor, dura pouco
Poesia, ai!...


Casa dos Contos | A casa é sua. Diga aí! (12)

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